Senana #2: O barato sai caro ou a importância dos preços na escolha dos produtos

Senana #2: O barato sai caro ou a importância dos preços na escolha dos produtos

Tal como na semana passada, a proposta desta semana é mais material para pensar do que outra coisa qualquer. Isto porque nos parece que há ideias que são fundamentais e nas quais se baseia toda uma jornada que se quer mais consciente e com menos desperdício. Então, a proposta número 2 do nosso desafio é esta: REPENSAR… A QUESTÃO DOS PREÇOS.

 

Se é verdade que nem sempre o ditado referido no título se aplica, também é verdade que se aplica na maior parte das vezes. E aplica-se, sobretudo, se não tivermos forma de comprovar ou observar o contrário. Façamos um pequeno exercício para tornar isto mais concreto:

 

  1. peguem no objecto que está mais próximo da vossa mão esquerda (não há nada de místico aqui, é só uma forma de garantir que os objectos não são escolhidos, mas absolutamente aleatórios)
  2. observem com atenção
  3. tentem perceber quais os diferentes materiais que o compõem
  4. para cada material, tentem imaginar o processo que o trouxe à sua forma final, esta que têm na vossa mão. Por exemplo, no caso de um copo de vidro com letras impressas: quem e quando foi recolhida a areia e todos os componentes necessários para dar corpo a este vidro, quem fez os moldes para o copo, quem o desenhou, quem transformou o vidro, que o poliu, quem supervisionou tudo, quem controlou a qualidade do objecto final, quem lhe gravou as letras, com que tinta, quem o encaixotou, quem o enviou, como foi transportado (avião, barco, camião)? Quantos intermediários existiram desde o fabrico a esta presença em vossa casa? Quantas famílias se alimentaram da produção e envio deste copo? Quanto tempo demorou isto tudo?
  5. olhem para o copo novamente agora. Mudou alguma coisa?

 

A verdade é que, para a maior parte das pessoas, pensar no processo abre um nível de consciência que é fundamental para dar valor a tudo aquilo que adquirimos e temos em nossa casa. E nem sempre o valor transparece no preço. Porquê?

 

A diferença entre preço e valor

O preço é aquilo que pagamos e o valor é o que um determinado objecto efectivamente vale. Num mundo justo, pagamos por um objecto exactamente aquilo que ele vale, ou seja, percebemos que há custos que são inerentes à qualidade e que estes custos devem reflectir-se no preço final. Um preço barato muitas vezes não reflecte o real valor das coisas. E se nós não pagamos com dinheiro, alguém paga: ou nós próprios, com a nossa saúde (se, ao escolher barato, estivermos também a escolher materiais de qualidade inferior); ou outras pessoas, eventualmente pessoas que trabalharam para podermos ter este objecto nas nossas mãos e que não foram recompensadas com condições de trabalho justas e dignas. Isto não é linear, como poucas coisas são; pode haver coisas que são efectivamente baratas e que, ao mesmo tempo são produzidas de forma justa e com matérias primas sustentáveis, mas a regra não é essa.

Depois há a questão das grandes marcas que, não apresentando qualquer tipo de certificação, praticam preços bastante elevados. Nesses casos, se a marca não mostrar um qualquer tipo de compromisso expresso com uma causa, seja o trabalho justo, o ambiente ou a alta qualidade da matéria prima por exemplo, é bem provável que estejamos a pagar sobretudo o logótipo da marca.

 

A importância das certificações

Quem procura determinados padrões de qualidade está habituado a ler rótulos, letras pequeninas e conhece os selos ou carimbos que acompanham determinados produtos. Esses selos são, nada menos, do que uma forma simples e eficaz de certificar os produtos: seja relativamente à sua origem, modo de produção, critérios de qualidade, testes de toxicidade, entre outros. Seria muito difícil, cada vez que temos de adquirir um produto, ter de ir à origem, procurar informações sobre a fábrica, os materiais utilizados, a justiça social no processo de fabrico, a responsabilidade ambiental das empresas. E por isso, há quem o faça por nós. Selos como o GOTS, PETA Cruelty Free, Faritrade, Ecocert, Oko Tex, entre outros, são emitidos por organizações cujo trabalho é precisamente esse: ir ver ao detalhe como as coisas são feitas e, se cumprirem os seus padrões, entregarem às marcas ou aos produtos a sua certificação. Este é mais um passo que as empresas social e ambientalmente responsáveis têm de dar. E também este passo de cuidado com o consumidor final deve estar reflectivo no custo de um determinado artigo.

 

Pagar o preço justo significa que estamos a contribuir para que todos aqueles que fizeram parte da produção, transformação, desenho, fabrico e transporte de um artigo sejam justamente recompensados e que as empresas envolvidas mantenham práticas de excelência ao nível do desempenho ambiental. Significa que não estamos a externalizar os custos, ou seja, a impingi-los a outros, estando sim a trazer para nós a responsabilidade do artigo que compramos. E estamos, acredito eu, porque o dinheiro não nasce das árvores, a obrigar-nos a um processo de compra mais consciente, mais pensado, mais ponderado e com consequências mais duradouras, pois passamos a olhar para as nossas compras como investimentos que queremos que fiquem connosco durante muito tempo.

 

Trabalhos para casa ou sugestões para a semana: da próxima vez que forem a uma loja, reparem nos preços, nos artigos, na história provável de cada um antes de chegar até aqui; avaliem se o preço que vos estão a pedir vos parece justo; procurem rótulos e certificações que atestem a qualidade do vosso investimento; orgulhem-se de fazer escolhas conscientes e bem pensadas; e depois, claro, venham cá partilhar as vossas experiências e partilhem também com os amigos.

 

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O desafio das 52 ideias para fazer menos lixo/desperdiçar menos, mudar o mundo é isso mesmo, um desafio. E como este desafio há muitos. Não pretendemos estar a inventar nada, mas também não estamos a copiar ninguém. As ideias aqui sugeridas, e a sua apresentação em 52 semanas, pretendem, isso sim, ser apresentadas como algo acessível e passível de ser feito facilmente por todas as pessoas. Isto porque acreditamos que os caminhos longos, como este de ter uma vida mais sustentável, são mais difíceis de iniciar. Mas, como todos os caminhos, fazem-se com um passo de cada vez.



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