É preciso ser pobre para salvar o mundo?

É preciso ser pobre para salvar o mundo?

É difícil ter certezas. Para a maior parte dos assuntos, e também para este do consumo responsável, desperdício zero e por aí fora, há inúmeros estudos e ainda mais opinões que apontam para coisas diferentes, soluções múltiplas.

Há dias saiu na revista Visão um artigo de opinião que alegava que para salvar o mundo é preciso retroceder, perder qualidade de vida e conforto, em sumo, para salvar o mundo é preciso ser pobre. Um artigo que encosta o leitor à parede ao perguntar-lhe se está disposto a abdicar de água canalizada e de viajar e que, ao mesmo tempo tempo lhe diz que, ou faz isso ou mais nada adianta dá, no mínimo, muito que pensar.

Cada vez que se fala em consumo responsável, estamos possivelmente a ser lidos/ouvidos/vistos por um potencial consumidor responsável, uma pessoa que, nos seus consumos futuros fará a si mesma várias questões antes de consumir; uma pessoa que, possivelmente, vai ter discussões com os amigos mais desinteressados nestes assuntos e, quem sabe, incentivar alguns a ter comportamentos mais responsáveis.

Como é possível que ter uma pessoa que, antes de comprar um artigo pensa “preciso mesmo?”, “posso comprar em segunda mão?”, “se tenho mesmo de comprar, posso comprar que seja durável?”, ser pior do que nada?

Como pode isto ser pior do que simplesmente continuar a consumir como temos vindo a fazer até agora?

Como pode ser pior comprar uma garrafa que se vai reutilizar do que continuar  consumir garrafas de plástico (que como todos os plásticos descartáveis se produzem com uma pegada de carbono mais pequena mas deixam um testamento destruidor no mundo)?

Será mesmo incompatível educar o consumidor contra o uso de palhinhas e, simultaneamente, educar os pescadores contra o abandono de redes no mar? Ou não serão as duas faces da mesma moeda? Não será este mundo que educa contra o comezinho plástico descartável das festas (não tão comezinho assim) o mesmo que educa os pescadores contra o impacto negativo de alguns comportamentos da classe?

Será realista pensar que agora todos, ambientalistas e não, cépticos e crédulos, interessados e desinteressados, vão passar a fazer um consumo típico de uma pessoa sem recursos financeiros para ter conforto e qualidade de vida?

Claro que o artigo é provocatório. Pretende, parece-me, espicaçar. Mas faz, quanto a mim, o contrário: coloca esta fatalidade de “ou fazes tudo ou mais vale não fazeres nada” em cima das pessoas, sobretudo daquelas que estão neste momento a pensar sobre formas de consumir de forma mais sustentável. Normalmente, apelar à solução mais radical não é um bom começo: afasta os mais cépticos e desacredita os moderados. E faz pouco daqueles que fazem um esforço efectivo para fazer alguma coisa.

Apelar à capacidade inventiva da humanidade, capaz de criar tudo aquilo  a que se proponha, isso sim, é progredir, andar para a frente, aprender com os erros e melhorar. O progresso, para além de toda a cultura descartável e consumista, trouxe também avanços impressionantes na medicina e na ciência, impossíveis de suportar por um país pobre. A humanidade avança não a retroceder, mas a avançar: a criar soluções novas para problemas novos; a procurar soluções mais sustentáveis para aquilo que se tornou numa necessidade; a educar para o consumo responsável que implica, necessariamente, consumir menos, muito, muito menos. Nisso, ao menos, estamos de acordo.