Comprar Zero Waste - uma contradição?

Comprar Zero Waste - uma contradição?

É comum os movimentos, sejam eles de que natureza forem, algum tempo depois de terem nascido, começarem a olhar para dentro a procura do que se está a fazer mal e como melhorar. Isso pode ser bom, mas também pode fazer perder de vista o objectivo inicial, uma vez que esquece aqueles que ainda não aderiram e se volta para os que ja cá estão para lhes dizer o que estao a fazer mal. 

Acontece isso com o movimento zero waste ou desperdício zero: aquilo que tem sido um movimento de uma importância vital para a educação das pessoas e a formação de consumidores mais informados, responsáveis e conscientes acaba muitas vezes por apontar o dedo àqueles que não fazem todas as opções condizentes com esta filosofia, em vez de continuar a olhar para os milhões de cidadãos deste mundo que ainda nem sequer têm a consciência ambiental como tópico de conversa ou reflexão.

Sempre tive uma veia ambientalista. Quando era miúda, aprendi sobre reciclagem na escola e incentivei desde aí a reciclagem em casa. Sempre gostei de guardar para reaproveitar os frascos de vidro e latas de bolhachas e estou sempre à procura de formas de reduzir o lixo produzido em casa. Utilizei fraldas de pano com o meu filho e se me esquecer de um saco de compras, é mais provável andar pelo supermercado à pesca das laranjas que me caem das mãos do que tirar um saco de plástico do dispensador. Isto tudo e outras coisas antes da Terra Batida.

Com a Terra Batida, e com a promessa de poder ajudar outras pessoas a ter acesso a artigos de que eu gosto tanto e acho que têm um impacto tão positivo, uma vez que representam mudanças no estilo de vida, veio também a dúvida: então mas eu estou a incentivar as pessoas a comprar coisas, com o objectivo de reduzir a quantidade de coisas que se compra? 

A minha dúvida dissipa-se quando olho para a prateleira das garrafas de água de plástico de um supermercado: enquanto a esmagadora maioria das pessoas escolher o descartável, a Terra Batida fará sentido. Há muitas pessoas que já escolhem opções reutilizáveis e procuram assim, no seu dia a dia, reduzir ou eliminar o consumo de artigos descartáveis. Isso é maravilhoso! Fazem parte de um movimento que se quer global e que pensa, antes de comprar, se tem mesmo necessidade daquele artigo. Ao contrário da minha geração, que cresceu no meio do deslumbramento pelo descartável, pela facilidade que traz consigo e pelo poder de compra para comprar e deitar fora. 

Não sou nostálgica no sentido de querer que as coisas sejam como eram antigamente. Acho óptimo poder lavar a roupa na máquina e não ter de ir ao rio lavá-la; mas se pudermos lavar a roupa com mais consciência sobre o impacto desse acto, melhor. E há muito que se pode aprender com o passado, quando se fabricavam artigos para durar muito tempo.

A mudança tem muitos caminhos, há muitas formas de mudar. O discurso sobre o ambiente está agora na agenda de uma forma mais assídua. E é preciso continar a falar sobre ele, sobre as mudanças urgentes e ao alcance de todos, incentivar a coragem daqueles que levam a cabo mudanças de fundo, reconhecer as mudanças que muitos fazem e que, podendo parecer pequenas para alguns, representam o início de um caminho. E, como todos os inícios, cheio de possibilidades.

Foto @Sphotography via Twenty20