#24 Escolher fibras certificadas

#24 Escolher fibras certificadas

A roupa que usamos, a forma e local onde foi produzida, a forma como a lavamos e  sua própria composição pode ter um impacto ambiental maior do que poderíamos imaginar

A pesada pegada ecológica da indústria têxtil começa a deixar as suas marcas no momento de cultivo das fibras naturais, com o uso de adubos e pesticidas e mantém-se ao longo de toda a cadeia de produção, com o uso de compostos químicos com diferentes funções , como branquear, tingir, impermeabilizar, etc, poluição da água nos processos de tingimento e tratamento dos tecidos. Para além dos tecidos em si, juntam-se ainda o funcionamento das fábricas e o transporte envolvido em toda a indústria, desde o início da produção até à disponibilização das peças de roupa nas lojas. De acordo com a revista Teste Saúde, da DECO, “em 2015, as emissões de gases com efeito de estufa originadas pelo sector têxtil totalizou 1,2 biliões de toneladas de CO2 (…), mais do que todos os voos internacionais e transportes marítimos” (1). Depois de chegar às mãos do consumidor, a roupa continua a poder ter impactos negativos, sobretudo se estivermos a falar de fibras sintéticas, que contêm microplásticos que seguem directamente para os cursos de água. A tudo isto acresce o facto de muita da roupa que é produzida fazer parte da chamada fast fashion, ou seja, moda para consumo rápido, barata e, por isso, fácil e rapidamente descartada.

A industria da roupa é, assim, considerando a sua produção, fabrico, transporte e utilização, uma das mais poluentes hoje em dia (5).

Esta introdução é apenas um resumo rápido daquilo que é o grande impacto ambiental causado pela indústria que faz a roupa que vestimos (aconselhamos vivamente, e para maior detalhe, as fontes que consultamos para escrever este artigo e de que deixamos referencia no final). Mas a verdade é que temos de nos vestir. A ideia desta semana para o nosso desafio “52 semana para fazer menos lixo” é esta: escolher fibras mais sustentáveis. Esta é, de facto, uma das formas de diminuir o impacto da roupa que vestimos, mas já lá vamos, porque não é a única. Como fazer então? Há várias alternativas:

 

Comprar menos roupa nova. Como? 

  • reutilizar roupa da família: com as crianças, isto é prática comum para muitas famílias  
  • trocar roupa: por outras peças de roupa ou por outros artigos, por exemplo, em mercados de trocas
  • comprar em segunda mão: cada vez há mais lojas de roupa em segunda mão. Ficam aqui apenas alguns exemplos: Kid to Kid, Dona Ajuda, Remar. Outra forma fácil de encontrar roupa em segunda mão à venda é nos mercados livres e na internet (olx, instagram, facebook)

 

Escolhas mais sustentáveis: escolher roupa com certificado ecológico

Chegamos então ao desafio desta semana: atenção às etiquetas! Há certamente vários factores a considerar e escolher uma peça de roupa com etiqueta de produto ecológico não é garantia de que estamos a fazer a escolha mais sustentável, sobretudo se for uma peça que não vai ser usada ou que vamos descartar indiferenciadamente. Mas é uma das vias. E, para todos aqueles que procuram fazer escolhas mais sustentáveis (os que lêem este tipo de publicações), acreditamos que à escolha das etiquetas irão acrescentar os outros cuidados todos que temos referido ao longo deste artigo (comprar menos, lavar com cuidado, descartar com consciência). A escolha das fibras naturais e certificadas tem grande impacto na manutenção da roupa, isto é, na sua lavagem e secagem, uma vez que são fibras que não vão libertar microplásticos durante estes processos. Ficam então algumas das etiquetas que atestam a qualidade ambiental das peças de roupa que as ganham.

 

EU ECOLABEL

É um rótulo ecológico da União Europeia, que existe desde 1992. O seu objectivo é ser um rótulo de excelência ambiental para produtos e serviços que respeitam elevados padrões ambientais ao longo do seu ciclo de vida: da extracção de materiais, à produção, distribuição e descarte. O EU Ecolabel procura também promover a economia circular, encorajar os produtores a utilizar menos CO2 durante o processo de fabrico e a desenvolver produtos duráveis e fáceis de reparar e reciclar.

 

GOTS

O Global Organic Textile Standard (GOTS) é muitas vezes referido como a etiqueta mais exigente na certificação de fibras orgânicas. Na verdade, para além de atestar sobre a qualidade fás fibras, o certificado GOTS procura também promover práticas sustentáveis em toda a cadeia de produção, bem como exige o respeito por critérios sociais. Para ter acesso à etiqueta GOTS, os produtores têm de respeitar um mínimo de 70% de fibras orgânicas, todos os produtos utilizados (como tintas ou outros) devem obedecer a exigentes critérios toxicológicos e ambientais, havendo também critérios ao nível do tratamento das águas e das condições de trabalho dos pessoas que contribuem para a produção. 

 

OKO TEX

OEKO-TEX é uma etiqueta que procura ajudar os consumidores e as empresas a tomar decisões responsáveis, com vista à protecção do planeta. Os testes e processos de certificação são elaborados de modo a garantir o máximo de segurança para o consumidor.  

 

E o que fazer à roupa quando já não a queremos?

Este tópico, como se costuma dizer e vem bem a propósito, dá pano para mangas. Por isso, deixamos apenas algumas ideias sobre o que fazer à roupa quando já não a queremos, para o que há, felizmente várias possibilidades:

  • entregar em lojas de roupa que vão fazer a triagem e, consoante o estado das peças, reutilizar, doar ou reciclar: H&M, Zara, C&A são alguns exemplos
  • deixar a roupa que não queremos mas ainda pode ser utilizada nos contentores da Humana (a mesma será vendida nas lojas de Lisboa ou Porto) ou da Remar (este grupo com mais lojas em todo o país)
  • vender em segunda mão (nos mesmos canais mencionados acima, na secção sobre como comprar menos roupa nova)

 

Se tiverem mais sugestões sobre este assunto, deixem nos comentários. É sempre bom trocar ideias :)

 

Fontes consultadas para escrever este artigo:

  1. Cécile Rodrigues e Fátima Santos, “Química no Roupeiro”, in Teste Saúde n.140, edição impressa de Agosto de 2019.
  2. https://ec.europa.eu/environment/ecolabel/
  3. https://www.global-standard.org/
  4. https://www.oeko-tex.com/en/
  5. Cátia Mendonça, Célia Rodrigues, Vera Moutinho e Rita Robalo Rosa, “A Pegada da Nossa Roupa”, in Publico, edição online de 20.11.2019 (data de consulta: 07.04.2020)

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Este artigo faz parte do desafio "52 ideias para fazer menos lixo/desperdiçar menos, mudar o mundo", que é isso mesmo, um desafio. E como este desafio há muitos. Não pretendemos estar a inventar nada, mas também não estamos a copiar ninguém. As ideias aqui sugeridas, e a sua apresentação em 52 semanas, pretendem, isso sim, ser apresentadas como algo acessível e passível de ser feito facilmente por todas as pessoas. Isto porque acreditamos que os caminhos longos, como este de ter uma vida mais sustentável, são mais difíceis de iniciar. Mas, como todos os caminhos, fazem-se com um passo de cada vez.