#21 Planear, planear, planear!

#21 Planear, planear, planear!

Consumir menos, comprar menos significa também pensar mais naquilo que se vai comprar. E com mais tempo. Ou seja, fazer tudo mais devagar. Dar às coisas o tempo que elas precisam para acontecer. Não planear significa que estaremos mais permeáveis à compra por impulso, à compra por necessidade de algo que não se comprou com antecedência e até a termos de nos contentar com o que há porque não planeamos com tempo. A quem nunca aconteceu deixar a compra de um presente para a última hora e, depois, ter de comprar uma coisa qualquer só para não ir de mãos a abanar?

 

Na questão do planeamento, as idas ao parque têm sido momentos impagáveis de aprendizagem para mim. Não sei se são só os meus filhos, mas sempre que chegam ao parque dá-lhes a sede e a fome que não tinham em casa e muitas vezes dei por mim a ter de regressar mais cedo por não ter levado nada para lhes dar. O parque é perto de casa e simplesmente saía sem pensar muito em mais nada. Tenho tentado aprender as minhas lições e, por isso, hoje em dia quando saímos levo sempre qualquer coisa; muitas vezes até são eles que perguntam se podemos ir lanchar ao parque, fazer um piquenique ou simplesmente levar qualquer coisa para comer. Não sei se é exactamente fome, parece-me que é mais o gosto de estar ali a petiscar qualquer coisa ao ar livre entre uma brincadeira e outra. E eu de novo a aprender com eles.

 

Mas isto de planear não veio de um dia para o outro e, se falo nos meus filhos, é porque acho que me têm ensinado a andar mais devagar e a dar mais tempo às coisas. Lembro-me de um momento chave para mim enquanto mãe. Foi um dia de manhã e estava a preparar-me para sair de casa. Eram as pressas do costume, os gritos do costume, ou seja, toda uma repetição. Tenho ouvido dizer que fazer as mesmas coisas repetidamente à procura de resultados diferentes é qualquer coisa de insano ou, pelo menos, pouco inteligente. E, naquele momento, rendi-me à evidência de que não podia tirar de casa uma criança de 3 anos com a mesma velocidade com que saía eu mesma de casa. Ele tinha (tem) os seus tempos e eu tinha (tenho) de os respeitar. Ou dava (dou) em maluca! Não sei exactamente que mudanças fiz na altura, mas uma delas foi tão simples como acordá-lo um pouco mais cedo para que tivesse todo o tempo de que precisava. Pode parecer simples, mas nesse dia percebi que mais vale não lutar contra as coisas que não vão de encontro às expectativas e, antes disso, olhar com atenção, perceber o objectivo final e trabalhar com o que temos.

 

O que tem isto a ver com planeamento? Pois, tudo!

 

Querer ter um modo de vida mais sustentável significa também planear mais, pensar antes de sair de casa sobre tudo aquilo de que vamos precisar enquanto estamos fora.Ter filhos acresce a dificuldade de imaginar as insondáveis e imprevisíveis necessidades que vão surgir num simples passeio pelo parque: é preciso levar água, qualquer coisa para comer (se uma destas duas falhar, lá temos de ir ao café mais próximo comprar uma garrafa e um maldito pacote de qualquer coisa), guardanapos para limpar o que for preciso, fraldas e mais um saco para guardar as sujas (no caso de fraldas de pano), uma muda de roupa para cada um se o parque for muito longe. Uma manta para nos sentarmos na relva.

A verdade é que os adultos também têm as suas necessidades, apesar de estas se aplicarem sobretudo a deslocações maiores e não a uma simples ida ali ao parque ao fundo da rua. Quando saímos também precisamos da garrafa de água, dos talheres e guardanapo de pano se vamos a um piquenique onde nos vão propor comer com descartáveis, do copo menstrual se vamos de férias e sabemos que vai acontecer entretanto, do almoço se vamos ter de almoçar fora e todos as opções de take away são com descartáveis, da lata de bolachas porque sempre dá a fome entretanto. Basicamente, precisamos de dar um momento ao planeamento antes de sair de casa. Porque a alternativa é ir ao supermercado e comprar o que há, seja descartável, plástico, sustentável, biológico ou o que for: será o que houver.

 

A verdade é que viver mais devagar significa também que temos mais tempo para prestar atenção às coisas. Mais devagar, mais tempo: soa isto contraditório? Dar às coisas o seu tempo, viver um momento de cada vez permite-nos estar inteiras no momento em que estamos, ter mais qualidade em cada momento e respeitar mais o tempo em geral e o nosso tempo em particular. E o bem que isso nos faz!

 

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Este artigo faz parte do desafio "52 ideias para fazer menos lixo/desperdiçar menos, mudar o mundo", que é isso mesmo, um desafio. E como este desafio há muitos. Não pretendemos estar a inventar nada, mas também não estamos a copiar ninguém. As ideias aqui sugeridas, e a sua apresentação em 52 semanas, pretendem, isso sim, ser apresentadas como algo acessível e passível de ser feito facilmente por todas as pessoas. Isto porque acreditamos que os caminhos longos, como este de ter uma vida mais sustentável, são mais difíceis de iniciar. Mas, como todos os caminhos, fazem-se com um passo de cada vez.



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